Ibotirama: Festival Reginaldo Pereira

Ibotirama era uma jovem de apenas 19 anos, quando a “Geração Cenecista” subiu ao palco do Salão de Carlos, para o seu I Festival de Música Popular. O ano era 1977 e ainda estávamos sob o manto da ditadura militar. O Festival trouxe a cena o desejo de expressão dos jovens ribeirinhos destas bandas. O desejo de ser corpo e voz, numa cidade afastada dos grandes centros. Dos bastidores ao espetáculo, muitas mãos o conceberam. Nomes que se misturaram com a história desse lugar. Acidade e o FEMPI cresceram juntos. O palco, que já foi o do salão, da ACRI e do Colégio Cenecista, arrebentou as paredes e ganhou a Praça. Uma das canções apresentadas já previa: “Ibotirama é povo na praça”. E o povo foi se aglomerando para assistir. Vieram vozes de perto e de longe. Das nossas redondezas e de destinos imprevistos.
No meio do trajeto, dez anos mais tarde, não bastou o canto. O eu poético se agigantou. Nascia o I Festival de Poesia de Ibotirama. Música e Poesia se derramaram pelo tempo, atravessando contextos diferenciados, sem se calarem. Em 2016, o Festival de Música Popular de Ibotirama completa quarenta anos e o Festival de Poesia trinta anos. Nasceram sem a pretensão de se perpetuar. Mas resistem. Resistem ao tempo, resistem aos apelos da indústria cultural, resistem aos padrões hegemônicos da cultura. Um caldeirão borbulhante de sonetos, cordéis, narrativas, ritmos. O FEMPI e o FEPI são potências criadoras. Desde Sílvio Araújo, Paulinho Cavalcante e Geraldo Poeta, muitos artistas emergiram por aqui, movidos pelo sopro das vozes de Agosto. É o nosso cotidiano, nossas dores, o imaginário ribeirinho, o curso do rio, as marcas da oralidade se lançando sobre a plateia que silencia para apreciar. É o espaço do intercâmbio da arte, quando nos chegam Festivaleiros e Poetas de outras paisagens e seus olhos se deparam com o sol descendo a serra e o Velho Chico refletindo o cenário. É o fervilhar da construção, dos ensaios exaustivos, da torcida, da preparação, da performance, da tensão e dos conflitos. É a trama das relações sociais. São as muitas mãos que continuam se juntando para tecer a arte. São as subjetividades desse solo sagrado, como um dia cantou Juarez Paulo: “Este palmo de chão é minha fúria/ este palmo de chão é meu sereno/ este palmo de chão é minha história/ este palmo de chão é meu aceno”. Quarenta e trinta anos, de FEMPI e de FEPI, significa imprimir no cenário da cidade, marcado por tantas transformações, as marcas do desejo de expressão que persiste, da cultura que emerge e que é re(existência), da nossa identidade, que se reafirma, quando as vozes e versos de agosto, continuam a ecoar.
(Tâmara Rossene)

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